terça-feira, 12 de julho de 2016

Crítica de Elvis Pinheiro ao espetáculo "Toque-me"


DOIS MODOS DE VER/SENTIR
(Crítica do espetáculo TOQUE-ME em turnê neste mês de junho de 2016 nos campi da UFCA)
Arte de amar
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor. 
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
(Manuel Bandeira)


Eu posso tentar descrever o espetáculo TOQUE-ME e dizer que ele se resolve num quadrado imaginário e que quatro atores encenadores, dois homens e duas mulheres, em pontas alternadas, irão juntar-se ao centro, irão olhar os que os olham e irão depois de inicialmente sérios, retirar máscaras imaginárias e irão rir, rir muito de todos nós ou deles mesmos ou do que sequer será possível imaginar. Em seguida, o primeiro rapaz se manterá em pé e os demais aos seus pés. Ele sentirá dor, uma dor no ventre, os demais, rastejando, lhe desejarão. As mudanças de perspectiva obedecem a uma sequencia de isolamento, busca frenética por outro, angústia, dor, solidão, desejo, busca frenética pelo outro e movimentos que operam/reproduzem o sexo. Existe uma faca para cada um dos quatro, que aparece no início, quando ainda estão isolados e no final, com a qual se pede a nós, espectadores/voyeurs que a usemos se quisermos, para feri-los/matá-los/aliviá-los de todas as suas angústias e frustrações. As coreografias homemxhomem, mulherxmulher, são fortes e delicadas, rítmicas e envolventes. A primeira vez que falam evocam o TOCAR. Depois se espalham e dão voz ao que antes era unicamente movimento corporal e aí relatam como se sentem, o que pensam da vida e de se faz algum sentido estarem/permanecerem/continuarem. Ninguém morre ao final das sequencias de desejo e solidão. Há muito toque, entre eles e em nós. Há muito olhar que nos invade e nos convida para uma interação. Em nenhum momento há amor para além de um imenso egoísmo, solidão, individualidade e medo da solidão e ânsia pelo outro. Não se morre, não se mata, mas ninguém se encontra ou se transforma em algo novo. Eles não conseguem ultrapassar a barreira de seus corpos. Eles não conseguem, independente de desempenharem os papeis de gays, lésbicas ou héteros, não conseguem vencer o isolamento físico. Em suas buscas não encontram ninguém e terminam sós.
Eu posso também tentar falar do que senti com um espetáculo que possui música de pelo menos três filmes que gosto muito: SOB A PELE, A PELE DE VÊNUS e IRREVERSÍVEL. Por sinal três filmes que falam sobre epiderme, tocar, buscar, permitir, se violentar, se colocar no lugar do outro, buscar conhecer o outro, descobrir essências, se transfigurar, se conhecer e que possuem crescente sensação de ansiedade e forte necessidade de punição. A música marca a peça/performance/dança/encenação. Do riso à dor. Do sexo à culpa. Da esperança sequiosa no outro ao desespero de se ver novamente sozinho. Eu vi muita incomunicabilidade, muita frustração, muita tristeza e o prazer pondo-os eletrizados, automatizados, escravizados. Compartilhava com aquelas criaturas a mesma imprecisão da busca e o mesmo não sentido de qualquer procura. Se o recado é pessimista, a experiência de ir fundo em nossos desejos e sonhos e na impossibilidade mesma de realizá-los quando não há diálogo, onde há desconhecimento, é também uma forma de sabermos se podemos ou não ser tocados e tocar alguém. A única história que eu poderia contar assistindo o espetáculo era a minha própria, e isso, para alguns, além de desconfortável, é assustador. Mas sou mestre em me perscrutar e havia na empatia uma alegria, misto de alívio e sentimento de pertencimento a algo que é maior do que os meus envolvimentos interpessoais. Saio da peça, enternecido, profundamente emocionado e cada vez mais certo de que sim, “os corpos se entendem, mas as almas não”.
Elvis Pinheiro, Juazeiro do Norte, 28 de junho de 2016



COLETIVO DAMA VERMELHA (Encenador: Thiago Silva Gomes. Atores encenadores: Janderson Alves, Heliônio Soares, Julia Martins e Penha Ribeiro). Bolsista: Alex Sandro Vieira. Turnê realizada através do Programa ARTE LIVRE, uma realização PROCULT e PROGEP da Universidade Federal do Cariri)



https://www.facebook.com/elvis.pinheiro.5/posts/10206188067692690




Espetáculo Toque-me no Programa Arte Livre (PROCULT/UFCA)


Diário de bordo(s)


Espetáculo "Toque-me" no Programa Arte Livre


Desenvolver um processo criativo é antes de tudo elencar escolhas e construir e agregar conhecimentos. O que comunicar, para quê, para quem, como haver tal comunicação? O Coletivo Dama Vermelha ao desenvolver o espetáculo/pesquisa/experiência intitulado "Toque-me" adentrava-se em um área tênue de se falar: O CORPO. O labor da sala de ensaio era incessante. Constantemente criavam-se ações, intenções, gerava-se sensações, situações, propostas, olhares, afetos do cotidiano imbricavam nessa construção e os experimentos caminhavam e transmutavam-se de forma avassaladora. Muitas coisas produzidas, muitas postas em cena, muitas guardadas para outrora. A pesquisa promovia um olhar atento a esse corpo contemporâneo não-linear que tanto comunica e que tanto sente, vive, explora, expressa, sofre, grita, cala... tudo chegava mais intensamente e os acontecimentos eram delicadamente impactantes e muitas vezes truculentos. O corpo dos intérpretes-criadores respondiam a tudo isso como estímulos para a produção e o resultado se consumava em sequências de movimentações corporais cheias de textos verbais silenciados. Construíamos sentidos, analogias, metáforas. Essa síntese do processo de criação é apenas um recorte, de um mundo de vivências experienciadas na labuta cotidiana onde o espetáculo se desenha."Toque-me" posto em cena, o trabalho se intensifica no contato com o público, se completa, ganha vida, descobre-se novas possibilidades.


Nesta perspectiva, no mês de junho e inicio de julho de 2016, o trabalho participou do Programa Arte Livre realizado pela Pró-Reitoria de Cultura da Universidade Federal do Cariri (PROCULT/ UFCA) em parceria com a Pró-Reitora de Gestão de Pessoas (PROGEP) e apoio do DIAP (Divisão de Informação, Atendimento e Protocolo) e DVTRAN (Divisão de Transporte), com agenda de 06 apresentações nos Campus da UFCA nas cidades de Juazeiro do Norte, Crato, Barbalha, Brejo Santo e Icó. 06 espaços díspares para experimentação a partir da proposta já desenvolvida pelo espetáculo. O "Toque-me" se metamorfoseou e ganhou inúmeras perspectivas de leitura e comunicação. Agregamos enquanto grupo discussões extremamente pertinentes para manutenção e limpeza da obra, exploramos diferentes possibilidades de pensar e executar ideias, fazer, desfazer e refazer. Uma circulação riquíssima e importante para prosseguir os estudos.

Um ponto imprescindível de ser mencionado foi todo o apoio, cuidado, atenção e carinho dedicados por Elvis Pinheiro ao espetáculo e ao grupo. Sua sensibilidade e delicadeza nos proporcionou momentos incríveis de aprendizado e boas trocas. Vale ressaltar que o mesmo acompanhou fielmente todas as apresentações, assistindo em sua maioria e comentando e criando pontes de interações com o público. O seu trabalho de mediação e de promoção do acesso às artes é importantíssimo e alcança diferentes públicos, possibilitando um disseminação das linguagens artísticas. É de um imensa satisfação e responsabilidade está dialogando e compartilhando tais vivências com o Elvis.

Outra pessoa importante de mencionar é o Alex Sandro Vieira, tão querido e prestativo com o grupo e que foi responsável por todos os registros do espetáculo em sua "tour". Gratidão pelas boas vivências.
Em suma, a metamorfose continua. Os olhares ampliados reflete novas criações. As trocas reverberam em novos horizontes de estudo e de trabalho. Os afetos invadiram, geraram questões, tocaram. E continuarão tocando e (re)criando perspectivas.

Coletivo Dama Vermelha

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