O processo novo ganha uma consistência cada vez mais sólida.
Eu começo a entender melhor as movimentações dos meus parceiros de cena, bem como a maneira como as minhas movimentações e as partituras que criei se encaixam com as dos demais...
Sinto uma compartilhamento de energias, de responsabilidades no novo trabalho.
A interdependência tão explícita no texto que escrevi semana passada começa a ser absorvida no processo. Um seguindo as movimentações dos demais e, num dado momento, todos seguem a sua, para depois ceder o espaço para o outro, sem que ninguém pare de se mexer, de dizer com o corpo algo específico ou algo que possa se encaixar na mente do espectador da forma que melhor lhe aprouver, numa sequência harmônica. Percebo que precisamos de muito ensaio, obviamente, para sentirmos melhor o tempo da música, para sincronizarmos as movimentações em uníssono e limparmos melhor aquelas que criamos individualmente.
No mais, eu gosto da ideia de um espetáculo que é um ensaio de atores que não falam ou falam pouquíssimo, que podem até cantar algo, mas que expressam toda a poesia e a eloquência do que querem dizer apenas com o corpo.
O corpo que fala, o corpo que deseja, o corpo que dói, que queima, que cai dentro de si mesmo, que emerge na superfície de si mesmo depois de se afogar na própria consciência.
O corpo articulado, fixo, móvel, imóvel, preso, liberto, doce, atroz, manso, feroz, que caça e é caçado, que é viril e feminino, que é céu e terra.
O corpo que é abismo das palavras, das ações, dos julgamentos, das emoções.
Penso: como meu corpo pode cair dentro de si mesmo? E aí me vêm a ideia do útero: o abismo materno que encerra em si a vida.
O primeiro lar de cada ser humano.
E o próprio nascimento não é sair da segurança quente e nutritiva do corpo da mãe e se jogar no abismo desse mundo tétrico e tão gélido?
São essas imagens e sentimentos que me vêm à mente quando penso no processo novo do Coletivo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário