Nos reunimos em primeira instância para uma leitura bastante esclarecedora sobre como a forma de um processo de criação está sujeita a modificações diversas ao longo do seu desenvolvimento e amadurecimento, bem como sobre a possível pluralidade de interpretações e implicações que a temática do espetáculo pode produzir no público e nos próprios atores. O texto é de Daniel Araújo, e faz parte do caderno de apontamentos referentes ao espetáculo "Milagre Brasileiro" do Coletivo de Teatro Alfenim. Após a leitura e os subsequentes debates concernentes ao texto, compreendi que um espetáculo é iniciado na mente do encenador/diretor e dos intérpretes de uma determinada maneira e somos surpreendidos pela metamorfose que ocorre tanto na estrutura estética, formal e qualitativa do produto cênico quanto no âmbito psicofísico dos intérpretes. Um processo de criação é realizado por pessoas, que utilizam seus corpos, suas mentes, seus diversificados tipos de energia e suas vozes para narrar, descrever ou instigar a imaginação de outras pessoas. O teatro é um espaço que pode ser utilizado para estabelecer uma atividade de humanização ou desconstruir a humanidade, para reconhecer a mediocridade humana dos infames ou exaltar as virtudes da alma dos samaritanos, para amadurecer uma postura crítica sobre o mundo ou zombar de nossa próprio "way of life", nossos hábitos, vícios e desejos animalescos. Logo, por ser tão humano, o fazer teatral se configura em um veículo de transformação social, e daí vem o interesse profundo tão perceptível no texto de Daniel Araújo pelo teatro com ênfase nos aspectos sociais, nas relações e interações humanas, nas modificações do pensamento e do comportamento social: a perspectiva de Bertold Brecht. O texto foi extremamente importante para que nos conscientizássemos ainda mais sobe a seriedade com que devemos criar e trabalhar nesse novo processo. Nossa amiga Ana Cristina (que esteve presente neste nosso encontro), bailarina da Cia de Dança e Teatro Traquejo, nos disse algo ao final do ensaio de extrema importância: "é fundamental que vocês tenham consciência do quanto é forte o que vocês estão dizendo". Essa consciência, a meu ver, tem de vir do âmago e ser projetada do fio de cabelo à ponta do dedo do pé. Cada célula do corpo ativada, manifestando seu discurso em alto grau sem emitir som algum, apenas com movimentos ora sutis, ora expansivos. Não temos que ter pena de gastar nossa energia, de nos cansarmos, de ficarmos exaustos no palco. A diferença vai estar aí: até que ponto eu doo minha energia para a cena de maneira que o público possa sentir o calor que emana dos meus órgãos e é pela pele e o suor que pinga no palco e o desenho que meus braços, mãos, pernas, cabeça, ombros, cotovelos, quadris, joelhos... em suma, que meu corpo delineia no espaço. Como nos fixarmos na mente das pessoas? Como fazê-las voltar para casa depois de assistirem nosso espetáculo e não conseguirem parar de pensar nas imagens que foram projetadas em suas retinas? Começo a amadurecer esse posicionamento de consciência psicofísica enquanto desenvolvo e aprimoro minhas partituras e observo as movimentações dos meus parceiros de cena. Incrivelmente, todas se encaixam, são maneiras distintas e complementares de enxergar o que é a humanidade, a criação da vida, a organicidade do corpo, a utilização desse corpo para dizer o que não pode ser dito, mas apenas mostrado, provado, experimentado com o próprio corpo. Nós queremos dizer com esse espetáculo o que sentimos, não o que expressamos com palavras, e aí vem o maior desafio: como unir tantos sentimentos, como costurar tantos pontos de vista, sensações, desejos, personalidades, defeitos, qualidades? Como contar essa história? A base, entretanto, para sermos bem sucedidos é a maturidade da concentração que impomos a nós mesmos durante os ensaios, a não poupança de energia na execução das cenas e a noção de que todos precisamos um do outro para fazer esse espetáculo acontecer, como as células do nosso próprio corpo, interdependentes mas cada uma com sua função específica, se unindo para formar um conjunto harmônico, seguro e belo. Eu aprecio demais esse novo processo. É uma gestação linda de algo que fala inclusive de fecundação, de origem, de gestação, de parto, de crescimento, de amadurecimento. Minhas partituras contém esses elementos: um ser que não é feminino, nem masculino, tampouco andrógino que observa duas células representadas pelas mãos, que se alternam incessantemente, até se fundirem e se deslocarem para o ventre, onde se inicia a gestação. O diretor Thiago me ajudou bastante a adquirir imagens para a representação de personalidades maternas universais, como Gaya, a Mãe-Terra, e logo pensei na Ísis da mitologia egípcia, a Rainha de Sabá e a própria Maria, mãe de Jesus Cristo, redentora dos transgressores, fracos e oprimidos. A referência da dança Butoh japonesa também é algo que o diretor me recomendou estudar para aperfeiçoar as partituras. Penso na seguinte sequência de elementos motivadores de inspiração para as cenas: as células germinativas, a fusão dessas células para originar um ser, a gestação dessa entidade, a doação de vida da mãe para o filho, alimento, oxigênio, sangue e carinho para essa criatura em desenvolvimento, a proteção/segurança que esse ser encontra no ventre do progenitor, o parto, o recém-nascido em desenvolvimento enquanto dança no chão, até que uma outra entidade se apropria da sua mão e se instala no seu coração, depois na sua garganta, depois na nuca, o fazendo subir para o plano alto. As novas movimentações criadas no dia 19 foram bastante divertidas, mas não despretensiosas. Temos que executá-las com perfeição e sincronia, sabendo exatamente a ordem e a configuração de cada uma, tanto as faciais quanto as corporais, de expressões e atitudes do cotidiano. Gosto bastante de todo o trabalho que estamos fazendo, e só temos a melhorá-lo com o tempo. Todo esforço e comprometimento é válido. Outro ponto importante é o sigilo que devemos ter com o que estamos produzindo. Vazar informações sobre um trabalho tão pessoal, belo e intenso antes da estreia do espetáculo não é importante. Então, que mantenhamos nossa discrição e responsabilidade com o que estamos criando.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
"PARTidas" (PodTeatro)
Espetáculo " PARTidas " (PodTeatro) SINOPSE "PARTidas" apresenta histórias anônimas de pessoas que refletem su...
-
Diário de bordo(s) Espetáculo "Toque-me" no Programa Arte Livre Desenvolver um processo criativo é antes de tudo e...
-
O projeto "Coletivo Dama Vermelha apresenta" busca enredar, conectar, divulgar artistas, grupos, espaços artístico-culturais no(s...
Nenhum comentário:
Postar um comentário